Rebelião sacode países árabes; Líbia adverte contra guerra civil


As manifestações populares prosseguiram nesta segunda-feira nos países árabes do Oriente Médio e norte da África, caracterizadas em sua imensa maioria por enfrentamentos violentos que causaram centenas de vítimas, inclusive mais de 50 mortes na Líbia.

"A Líbia não é o Egito nem a Tunísia", assinalou em tom desafiante nas primeiras horas desta segunda-feira (21) Seif al-Islam al-Khaddafi, filho do líder líbio, para advertir que a tentativa de derrubar o governo desataria em uma guerra civil e "uma espiral de violência pior que no Iraque".

Em uma entrevista transmitida pela televisão, o filho de al-Khaddafi reconheceu que os enfrentamentos em Bengazi e al-Baida, no oriente do país do norte da África, provocaram cerca de 100 mortos, mas considerou exagerados os dados de fontes estrangeiras, que se referiam a mais de 230 vítimas.

Segundo o movimento opositor que exige a renúncia do presidente líbio, pelo menos 170 pessoas perderam a vida nos últimos cinco dias de protestos, 50 delas só no último domingo em Bengazi, enquanto em Tripoli a escalada de violência resultou em um número desconhecido de baixas.

Seif al-Islam, considerado possível sucessor do líder líbio, acusou "agentes estrangeiros, traficantes de droga e radicais islâmicos" pelas revoltas nas ruas" e afirmou que "egípcios e tunisianos têm armas e estão aqui, propiciano em grande parte o que está acontecendo".

Al-Islam sublinhou que seu pai está em Tripoli, apoiado pelo Exército e conduzindo o que definiu como uma "batalha contra aqueles que procuram destruir a Líbia", país onde – segundo outras informações – militares e policiais abandonaram áreas de Bengazi.

Sem Ministro da Justiça

O ministro da Justiça da Líbia, Mustafá Mohamad Abdeljalil, demitiu-se nesta segunda-feira (21) em protesto contra o "uso excessivo da força" contra os manifestantes. A saída de Abdeljalil reforça a baixa no governo do presidente líbio, Muammar Khadafi, que registrou três pedidos de demissão de embaixadores do país (na Índia, na China e na Liga Árabe, que representa 22 nações).

Os diplomatas informaram que deixaram os cargos por discordar da maneira como o governo Khadafi reage às manifestações que ocorrem na Líbia desde o último dia 15.

A organização denominada Federação Internacional das Ligas de Direitos Humanos informou que morreram no país entre 300 e 400 pessoas. Porém, a organização Human Rights Watch informou que são 233 os mortos nos seis dias de confrontos, nas principais cidades líbias.

Venezuela nega boato

Plantando um boato na mídia, o ministro de Relações Externas do Reino Unido afirmou que recebera "informações" segundo as quais o líder líbio estaria viajando para a Venezuela. O boato foi desmentido pelo governo venezuelano, segundo informou a agência France Presse.

Caracas afirmou que "não havia contato" com al-Khaddafi ou sua administração. Mais cedo, o ministro britânico disse que não havia informações "específicas" sobre a suposta viagem de al-Khaddafi, só tinha "visto informações sugerindo que ele estava a caminho". O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, e al-Khaddafi mantêm boas relações. Não há, porém, nenhuma confirmação oficial da viagem.

Mais mortes no Iêmen

Ao mesmo tempo, no Iêmen, milhares de pessoas, entre estudantes, professores e parlamentares, se uniram hoje em um protesto perto da Universidade de Sanaá, para exigir a renúncia do presidente Ali Abdulá Salé, apesar deste estar rodeado de policiais e simpatizantes do governo.

Os onze dias consecutivos de reivindicações, com gritos de "Fora Ali", ou "o povo quer a saída do regime", provocaram choques com forças leais ao chefe de Estado na capital, Sanaá, assim como em Adén, Taiz e outras cidades, com saldo não oficial de mais de 25 mortes e 200 feridos.

Fontes médicas indicaram que na última madrugada um manifestante oposicionista morreu e outros cinco foram feridos por disparos da polícia em Aden, enquanto no domingo foi registrada uma outra vítima fatal em um incidente semelhante na mesma cidade.

As manifestações mais recentes na Jordânia e em Marrocos exigindo reformas democráticas, mudança de governo e melhores condições de vida foram realizadas sem maiores complicações.

No reino hachemita, o rei Abdulá II pediu ao Executivo que faça reformas "reais e rápidas", promova um diálogo com a oposição e se esforce mais no combate à corrupção, a fim de acalmar o descontentamento popular, que se estendeu e gera mobilizações há mais de um mês.

As ações governamentais deixaram oito feridos na última sexta-feira, mas no domingo as forças de segurança evitaram confrontos nas ruas.

No reino alauita do Marrocos, milhares de pessoas se concentraram em Rabat, Casablanca, Marrocos e outras cidades marroquinas para exigir que o monarca Mohamed VI ceda poderes e para clamar por "liberdade, dignidade e justiça".

O clima de tensão prevalece no Bahrein, com protestos no centro da capital, Manama, em meio a um processo de diálogo sem violência depois que o Exército e a polícia abandonaram a praça da Pérola, reocupada por opositores xiitas após dias de forte repressão.

Cenário preocupante

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon, afirmou que considera “muito preocupante” a conclusão dos relatórios que recebeu sobre as manifestações ocorridas na Líbia, Iêmen e no Bahrein.

Ban apelou às autoridades desses países para que evitem o uso da força e da violência contra os manifestantes que reagem os respectivos governos. O secretário-geral "faz questão de reafirmar sua convicção de que este é o momento para o diálogo amplo e de reformas social e política genuínas", informa o comunicado, divulgado pelas Nações Unidas, domingo à noite.