Na trilha do sonho


Concluído em 2006, o filme A Ilha da Morte, de Wolney Oliveira, finalmente chega ao circuito comercial. A pré-estreia será hoje, 12, no Espaço Unibanco, com a presença do diretor e elenco

Há mais de 20 anos, o cineasta cearense Wolney Oliveira, 49, então estudante da Escola Internacional de Cinema e TV de Cuba, dirigia o curta O Invasor Marciano, trabalho sobre um grupo de cineastas cubanos que realizava filmes caseiros na cidade de San Antonio de Los Baños. O filme, primeiro projeto realizado na escola a ser premiado em festivais, permaneceu durante muito tempo em sua cabeça. Alguns anos mais tarde, Wolney revisita o projeto e, influenciado por ele, dirige A Ilha da Morte, o segundo longa metragem de sua carreira, sendo o primeiro no gênero ficção. Concluído em 2006 e lançado em 2007, no Cine Ceará, A Ilha da Morte só agora chega ao circuito comercial.

Atualmente em exibição em São Paulo e no Rio de Janeiro, o filme chega hoje à Fortaleza, com pré-estreia em sessão fechada para convidados no Espaço Unibanco, do Centro Dragão do Mar. E na próxima sexta, 15, entra em cartaz.

O período era julho de 1958. Em uma Havana pré-Fidel Castro, um jovem sonhava dirigir filmes em Hollywood. A obsessão de Rodolfo (Caleb Casas) ia de encontro aos ideais revolucionários de seu pai, Ambrosio (Alberto Pujol), que atuava clandestinamente contra a polícia do ditador cubano Fulgêncio Batista. O desinteresse de Rodolfo diante da situação política em que o país se encontrava colocava-o em constante conflito com o pai. A mãe, Lucrecia (Isabel Santos), dona de casa, não levantava nenhuma bandeira ideológica, queria apenas um marido mais presente e a felicidade do filho. Perseguidos pela polícia, a família foge de Havana em direção à fictícia San Juan de Las Rocas, cidade onde a trama se desenvolve.

Embalado por um sonho inalcançável, Rodolfo escrevia com frequência ao presidente de um dos maiores estúdios cinematográficos do final da década de 1950, a Metro Goldwin Mayer, enviando-lhe seus roteiros na esperança de que fosse descoberto e levado para o mundo fantástico de Hollywood. Impulsionado por esta paixão, encontra em um grupo de jovens cineastas amadores da nova cidade a oportunidade de dar chão ao grande sonho. Ao mesmo tempo em que seu pai se alia a novos revolucionários, Rodolfo é cobrado por uma atitude mais responsável e o conflito entre paixão e idealismo, entre arte e política estremece a relação dos dois, que ao final do argumento encontra seu desfecho.

A Ilha da Morte é um filme sobre paixão e idealismo. O desejo de um cineasta de realizar um filme com baixo orçamento, a paixão de um jovem de dar pé ao seu grande sonho, o idealismo de um revolucionário em por fim ao regime ditatorial de seu país e a esperança de uma transformação política. A inquietação experimentada pelos personagens é algo que se perdeu nos dias de hoje. Ainda que apontado como ingênuo por parte da crítica, Rodolfo alcança um objetivo, resolvendo o conflito armado durante a trama. Um filme que propõe na relação com o espectador aquilo que Wolney tem como premissa para realizar seus filmes: causar algum tipo de emoção.

Distribuição
A Ilha da Morte seguiu uma trajetória planejada por Wolney Oliveira. “A ideia sempre foi lançar o filme no Cine Ceará, depois fazer um circuito de festivais nacionais e internacionais, como o de Trieste, na Itália, e Havana, e depois lançar o filme. Então quando eu o exibi para um grupo de pessoas (durante o 17º Cine Ceará), o Thomas (Jean Thomas, diretor da Imovision, distribuidora do filme) estava assistindo e me disse que tinha interesse em distribuir o filme”, lembra. Lançado com quatro cópias e um orçamento de R$ 60 mil, o filme entra no circuito sem pretensões, e Wolney assume não ter qualquer expectativa de bilheteria. “Minha expectativa continua sendo não ter expectativa e entregar a Deus e ao padre Cícero Romão Batista”.

Cineasta experiente em projetos documentais, Wolney não esconde sua satisfação com o resultado de sua primeira incursão totalmente ficcional. Milagre de Juazeiro, seu primeiro longa metragem, dividia-se entre ficção e documentário. “Eu gosto de trabalhar a ficção, dessa forma, sempre baseado em uma historia real”. Talvez por isso, eleja Milagre de Juazeiro como seu trabalho favorito. “Ao mesmo tempo, partir para a ficção, era um desafio que eu queria assumir, não só eu, mas acredito que qualquer pessoa que faz cinema documental”.

No momento, Wolney está empenhado na produção de quatro documentários. Entre eles, O Altar do Cangaço, filme que talvez leve para a ficção posteriormente. “É um filme em que localizei seis ex-cangaceiros, ex-volantes. Vai contar a história do cangaço através do último casal de cangaceiros vivos que passou 66 anos escondido e que fez uma fuga fantástica. Durante três meses eles caminharam pela beira do rio São Francisco. Essa é uma história que pode ser que eu leve para a ficção porque é uma história maravilhosa e essa fuga pode gerar um road movie do cangaço”. Vamos aguardar.

SERVIÇO

A ILHA DA MORTE (BRA/CUB/ESP, 2006, 88 min), filme de Wolney Oliveira. Pré-estreia em Fortaleza em sessão fechada para convidados com a presença do diretor e elenco. Hoje, 12, no Espaço Unibanco, sala 2, às 21h30. No Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. O filme entra em cartaz na sexta, 15, também no Espaço Unibanco.

EMAIS

– Os títulos de A Ilha da Morte e O Invasor Marciano são outra homenagem ao grupo cubano. Esse grupo, fez mais de 10, 12 filmes, um dos deles se chamava O Invasor Marciano, e o outro El Cayo de La Muerte, título original de A Ilha da Morte.

– Rodado durante quatro semanas em Cuba e quatro em Fortaleza, o filme teve como locação aqui a Praia Mansa, uma fábrica antiga no Aquiraz e uma região na Praia de Iracema. Parte do elenco e da equipe técnica é cearense. Dentre os atores estão Cláudio Jaborandy, Haroldo Serra, Rodger Rogério, Zé Tarcísio, Pedro Domingues. Como o filme é falado em espanhol, apenas Cláudio Jaborandy não precisou ser dublado.