7 de abril de 2014

CIA é mantida à frente dos “assassinatos seletivos” com drones

Os ataques com veículos aéreos não tripulados (drones) pelos Estados Unidos têm causado reações no Afeganistão, Paquistão e Iêmen, devido às inúmeras vítimas civis e à destruição das estruturas que nada têm de “alvo militar”. Recentemente, o governo iemenita baniu os ataques com drones, mas de acordo com o jornal estadunidense The New York Times, em matéria deste sábado (5), a Agência Central de Inteligência (CIA, na sigla em inglês), mantém a “guerra com drones”.

Manifestantes no Paquistão protestam contra operações com drones dos EUA, que causaram centenas de mortes civis. “Acabem com os ataques a drones. Os ataques a drones são a razão do terrorismo no Paquistão”.

O uso dos veículos aéreos não tripulados e armados com mísseis é uma polêmica internacional e provocou a revolta das populações dos países mais afetados, Afeganistão, Iêmen e Paquistão, com expressões de protesto contra a presença militar dos EUA nestes países, em geral. Apesar do banimento e dos protestos, entretanto, a CIA continua empregando os drones.

E o New York Times ressalta que é a CIA, e não o Ministério da Defesa, ou Pentágono, quem está manejando o programa. Há apenas um ano, lembra o jornal, o novo diretor da CIA, John O. Brennan havia dito que era hora de mudar o foco da agência, que se tornou “uma grande organização paramilitar” depois do 11 de Setembro. Sua opinião, entretanto, é que a entidade deveria voltar aos seus papeis “tradicionais” de espionagem, coleta de inteligência e análise.

E também o presidente Barack Obama, em discurso em maio de 2013, disse que procuraria redefinir a política estadunidense sobre o combate ao terrorismo. Para isso, anunciou novas diretrizes para as operações com drones, que as autoridades na Casa Branca disseram que se tornariam, progressivamente, uma responsabilidade do Pentágono.

O “negócio da matança” é da CIA

A CIA, porém, ainda não mexeu em seu papel significativamente. Segundo um antigo oficial do Pentágono responsável pelas operações especiais e presidente do Centro de Combate ao Terrorismo na famosa academia militar de West Point, Michael A. Sheehan, citado pelo New York Times, disse que a agência de espionagem não será removida tão breve do “negócio da matança”.

Segundo ele, os fatores que contribuem para este retraso são as lutas burocráticas, a pressão do Congresso e as exigências de governos estrangeiros, além de outros aspectos do papel da CIA à frente das guerras secretas que o país conduz desde 2001.

O jornal também cita um relatório recentemente desclassificado do Comitê de Inteligência do Senado sobre o programa de detenção e interrogatórios da agência, o que também colocará este período da história em foco. O Departamento de Justiça entrou em uma disputa com a CIA e o Comitê e analisa uma acusação da senadora Dianne Feinstein, presidente do comitê, sobre a violação da lei pela agência, com o monitoramento de computadores dos que trabalharam na elaboração do relatório.

Em seus quatros anos como conselheiro de Obama em contraterrorismo, Brennan – que foi colocado no posto de gestão das operações de “assassinato seletivo” e que trabalhou, antes, por 25 anos na CIA – teria advertido o presidente de que sua marca registrada no combate ao terrorismo, o suposto assassinato seletivo, ameaçava atrapalhar as outras atividades da agência, como a infiltração em governos estrangeiros e a análise das tendências globais.

Neste sentido, criticou o desempenho da agência para interpretar as “revoluções árabes” iniciadas ainda em 2009, e sugeriu a transferência das suas “atividades paramilitares” ao Pentágono. Entretanto, Brennan está atualmente à frente do aparato contraterrorista, que cresce exponencialmente em orçamento, funcionários e influência, ressalta o jornal norte-americano.

Manter o contraterrorismo agressivo

Parlamentares influentes democratas e republicanos têm se empenhado para proteger o papel da CIA na “guerra com drones” e impedir a mudança sugerida no bojo das operações com drones para o Pentágono.

Autoridades disseram que o banimento dessas operações pelo Iêmen – lançadas desde uma base estadunidense no Djibuti – resultou de um ataque, em dezembro, que matou vários civis que participavam de uma cerimônia de casamento, em uma região afastada ao sul da capital iemenita, Sana. Mas as operações são mantidas, inclusive com o lançamento de drones desde a Arábia Saudita.

No Paquistão, onde a CIA também está comandando o programa, o ritmo dos ataques diminuiu e foi, inclusive, suspenso, desde que o governo do país iniciou diálogos formais com o Talibã paquistanês, de acordo com o Birô de Jornalismo Investigativo, um grupo que monitora os ataques com drones, citado pelo New York Times.

Ainda assim, oficiais dos Estados Unidos afirmam que o programa com drones – focado nos alegados “assassinatos seletivos” e que resultam, ainda assim, em danos e mortes civis substanciais – poderia ser mantido por anos, enquanto o governo paquistanês insiste para que ele seja gerido pela CIA, e não pelo Pentágono. Este foi o acordo feito entre os antigos presidentes Pervez Musharraf e George W. Bush e, de acordo com fontes do governo estadunidense, não mudou desde a posse de Obama.

“Apesar dos rumores de que a CIA está se retirando do assunto do contraterrorismo, nada poderia ser mais distante da verdade”, disse o diretor da agência, Brennan, no mês passado, no Conselho de Relações Exteriores.

Por Moara Crivelente, da Redação do Vermelho,
Com informações do New York Times