4 de junho de 2009

Patativa comparado a Lorca e a Neruda

"Seria difícil de imaginar o Chile sem Pablo Neruda, ou a Espanha sem Garcia Lorca, pois eles foram poetas que traduziram a alma do povo, da mesma forma que Patativa do Assaré rompeu todos os cercos até se afirmar como a voz da nação e do povo brasileiro". O cineasta Rosemberg Cariry emitiu essa opinião instantes antes do início da projeção do seu documentário "Patativa do Assaré – Ave poesia", exibido na noite desta quarta-feira (), no auditório Senador Antonio Carlos Magalhães, do Interlegis.

O senador Inácio Arruda (PCdoB-CE) também se pronunciou no salão de entrada do Interlegis. Ele destacou o esforço feito pelo poeta cearense – que leu Camões, Graciliano Ramos e Machado de Assis, entre outros – para se habilitar, de forma autodidata, a fazer poesia.

O poeta Gongon (Gonçalo Gonçalves) e as duplas de cantadores Francisco Félix e Azulão do Nordeste e Elias Ferreira e Damião Ramos também prestaram homenagem a Patativa do Assaré na forma de poesia e repente. Azulão, natural de Canindé, no Ceará, disse que foi incentivado por Patativa no início de sua carreira. Francisco Felix, que mora há 30 anos em São Paulo, também participou de diversas cantorias com o poeta.

O filme

O filme de Rosemberg Cariry começa com imagens de uma ventania na aridez do sertão, formando um redemoinho que vai lambendo o chão e levantando poeira por onde passa, até sumir, misturado com a própria terra. Logo em seguida, cenas do velório de Patativa. Homens e mulheres do povo choram e lamentam a morte do velho poeta.

Depois de iniciar a narrativa pelo final – pela data de 9 de julho de 2002, quando o poeta morreu -, o filme de Rosemberg Cariry retrocede ao início da história, 5 de março de 1909, data em que o poeta nasceu e conta a vida do homem que nasceu Antônio Gonçalves da Silva e depois tornou-se Patativa do Assaré.

- Nasci em extrema pobreza, filho de um agricultor muito pobre, e comecei a trabalhar com roça desde menino, junto com meus irmãos José, Pedro e Joaquim. Perdi meu pai com apenas nove anos. Aos oito anos, na primeira vez em que ouvi ler um folheto de cordel, fiquei como que encantado. Parece que um mundo novo entrou na minha mente. Comecei a fazer versinhos desde essa idade – lembra Patativa, no filme de Cariry.

Patativa do Assaré também recorda com tristeza quando, aos quatro anos, contraiu sarampo e terminou perdendo a visão do olho direito. Ele atribui a perda da vista não apenas à doença, mas também ao nascimento dos seus dentes queixais e ao fato de em Assaré, naquela época, não contar com médicos. Depois de estudar apenas durante seis meses, o menino Antonio Gonçalves abandonou a escola.

- O professor também nada sabia. Só estudei seis meses, mas saí de lá escrevendo e lendo. Nasci com o privilégio de entender tudo o que um escritor escrevesse, por mais que a história fosse intrincada. Aprendi me valendo nos próprios livros, lendo. Com a constante leitura fui obtendo o vocabulário com o qual posso dizer tudo o que quero de poesia, tanto da matuta, como da erudita, a literária – destaca Patativa.

Sua primeira viola, obteve aos 16 anos, quando pediu a sua mãe que vendesse uma cabra que lhe pertencia. Com o dinheiro, comprou a viola. Aprendeu a tocar dedilhando e cantando, mas não imaginava que o improviso se tornaria uma profissão. Aos 20 anos de idade foi apelidado de Patativa, nome de um pássaro conhecido por seu belo canto. Nesta época, tocou diversas vezes na Rádio Araripe e viajou por algumas cidades nordestinas, se apresentando como violeiro.

No ano de 1956, escreveu seu primeiro livro de poesias "Inspiração Nordestina". A obra foi custeada pelo latinista José Arraes de Alencar. Patativa transportava os livros no lombo de burro para vender nas cidades. Rosemberg Cariry também mostra o lado político e social do poeta, que se dizia socialista e defendeu as ligas camponesas e a reforma agrária.